Estoques da indústria brasileira voltam a crescer.Enquanto a indústria de eletrodomésticos e automóveis acumula estoques indesejados, outros setores trabalham com escassez de produtos.
A economia brasileira exibe sinais contraditórios. Por um lado, a indústria de eletrodomésticos e automóveis começa a acumular estoques, mas em outros setores o que se vê é exatamente o oposto: em alguns casos existe escassez de produtos e de mão de obra.
Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV) as indústrias de veículos e de eletrodomésticos voltaram a acumular estoques indesejáveis em junho pela primeira vez desde o início de 2009. Esses setores haviam sido beneficiados pelo corte temporário do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que já voltou ao normal.
As montadoras têm atualmente 318 mil veículos nos pátios das fábricas e das concessionárias. Em volume, é o maior dos últimos anos, à frente inclusive do registrado em dezembro de 2008, quando o mercado parou ante a falta de crédito provocada pela crise. Naquele mês, o encalhe de veículos somava 305 mil unidades, o equivalente a quase dois meses de vendas. Mas o estoque atual, apesar de mais volumoso, equivale a menos tempo: 36 dias.
A indústria de fogões, geladeiras e máquinas de lavar também acumula estoques indesejáveis, mesmo tendo reduzido o ritmo de produção. Depois de as vendas crescerem entre 30% e 35% no primeiro trimestre na comparação com igual período de 2009, houve recuo de 10% no mês passado e em julho. Há empresas que deram férias aos trabalhadores, mas que não cogitam demissões, porque acham que vão retomar as vendas nos próximos meses.
Essas e outras evidências deram respaldo para que o Banco Central (BC) reduzisse o ritmo de alta da taxa básica de juros (Selic) por considerar que a atividade econômica está em desaceleração
Já na construção civil, por exemplo, a situação é inversa. Empresas importam cimento para atender ao ritmo acelerado das edificações. As companhias de transporte rodoviário, por sua vez, têm dificuldade de pôr toda frota para rodar por falta de pneus. Também voltou a ter fila de espera para compra de caminhões zero quilômetro. Nos portos, o aumento das importações e o embarque maior de açúcar provoca congestionamento.
"Houve um freio de acomodação na economia brasileira no segundo trimestre", afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Essa redução de ritmo aparece no Índice de Atividade Econômica, calculado pelo BC, que registrou estabilidade entre abril e maio. Na análise de Vale, essa acomodação da atividade era previsível por causa da retirada dos incentivos fiscais para compra de carros e eletrodomésticos, o menor número de dias trabalhados em junho em razão dos jogos da Copa do Mundo e o fato de o primeiro trimestre ter sido muito intenso. |